A psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, especialista em saúde mental e relações familiares, nota que crianças que sofrem violência diretamente e crianças que apenas testemunham violência entre os adultos da própria casa apresentam impactos diferentes, mas igualmente sérios, algo que costuma ser subestimado quando se pensa apenas na primeira situação como merecedora de atenção real.
O que costuma acontecer com quem sofre abuso diretamente?
Quando a violência é dirigida diretamente à criança, o impacto costuma envolver uma ruptura mais explícita e dolorosa na confiança em figuras de cuidado próximas. A criança aprende, de forma direta e dolorosa, que o próprio corpo e os próprios limites podem ser violados por quem deveria protegê-la acima de qualquer outra coisa.
Esse tipo de experiência dolorosa costuma gerar sinais mais visíveis: medo evidente de determinados adultos específicos, marcas físicas quando aplicável, e relatos, ainda que fragmentados e incompletos, sobre o que de fato aconteceu. Uma criança pode, por exemplo, recusar-se terminantemente a ficar sozinha com determinado adulto específico da família, sem conseguir explicar com clareza exatamente o porquê dessa recusa tão firme.
O que costuma acontecer com quem apenas testemunha
Taiza Tosatt Eleoterio sustenta que crianças que testemunham violência entre os adultos, sem serem alvo direto de nenhuma agressão específica, vivem um tipo diferente de ruptura emocional: a sensação de que o ambiente inteiro é instável e imprevisível, mesmo quando elas próprias nunca são tocadas fisicamente por ninguém envolvido no conflito.
Esse impacto costuma ser mais difícil de nomear, tanto pela criança quanto pelos adultos ao redor dela, porque não deixa marcas físicas nem produz um relato direto de agressão sofrida na própria pele. O sofrimento fica mais difuso e disperso, espalhado pelo clima geral e constante da casa inteira, como uma tensão que paira sobre tudo sem um evento único específico a que se possa apontar com clareza.
Onde os dois quadros se cruzam
Em ambos os casos, o sistema nervoso, ainda em plena formação da criança, entra em estado de alerta constante e prolongado, o que afeta sono, concentração e regulação emocional de forma bastante parecida e igualmente prejudicial. A diferença está mais na origem específica do medo do que na intensidade geral do impacto sobre o desenvolvimento infantil.
Taiza Tosatt Eleoterio revela que os dois quadros também compartilham um elemento importante e preocupante: a dificuldade real dos adultos em perceber a real gravidade do que está acontecendo, seja por minimizar completamente o sofrimento de quem apenas testemunha, seja por não conseguir nomear abertamente o que a criança que sofre diretamente vive em silêncio absoluto e solitário.
Por que nenhum dos dois deve ser minimizado?
Comparar os dois quadros não serve para hierarquizar qual sofrimento é “pior” ou mais válido, e sim para reconhecer que ambos merecem atenção e cuidado profissional adequado, ainda que os sinais e as intervenções necessárias possam ser diferentes em cada caso específico. Uma escola que só encaminha crianças com marcas visíveis, por exemplo, deixa passar despercebidas aquelas que carregam o mesmo peso de outra forma, igualmente urgente.
Esse tipo de negligência involuntária pode custar caro no longo prazo, já que o sofrimento não tratado adequadamente tende a se manifestar mais tarde, muitas vezes já durante a própria adolescência, sob formas que já não parecem ter relação direta com a origem real do problema vivido.
Para Taiza Tosatt Eleoterio, tratar apenas a violência direta como digna de preocupação real deixa uma parcela significativa e considerável de crianças sem o apoio de que realmente precisam, mesmo quando elas nunca foram, elas mesmas, o alvo de um único golpe ou agressão física dirigida diretamente contra elas.
