Poucas características em um filhote geram tanto encantamento quanto os olhos claros de um dálmata recém-nascido. O que muitos tutores não sabem é que essa mesma característica carrega um sinal genético ligado a um dos problemas mais estudados da raça. Wilson Bachega Junior, entusiasta de dálmatas, nota que essa informação costuma chegar tarde demais, quando o filhote já está em casa e a surpresa vira preocupação.
A surdez congênita não é um defeito raro nem um azar isolado. Ela está diretamente conectada ao mesmo processo biológico que produz as manchas características da raça, e entender esse vínculo muda a forma como se escolhe, se cria e se acompanha um dálmata ao longo da vida.
O gene por trás da pigmentação incompleta
O padrão de manchas do dálmata resulta da ação de genes que controlam a distribuição de melanina pelo corpo do animal. Em algumas regiões, essas células responsáveis pela cor simplesmente não migram como deveriam durante o desenvolvimento do filhote ainda no útero, deixando áreas de pele e pelo sem pigmento algum.
O problema é que essas mesmas células de melanina também participam da formação do ouvido interno. Quando a migração falha em regiões próximas à cóclea, o desenvolvimento auditivo é comprometido junto com a cor, o que explica por que um problema estético e um problema sensorial nascem da mesma origem genética.
Por que o olho azul pesa mais nessa equação?
Filhotes com olhos azuis apresentam, em média, uma probabilidade maior de nascer surdos do que os de olhos castanhos, e essa diferença fica ainda mais evidente em cães com poucas manchas ao redor dos olhos. Wilson Bachega Junior descreve a pigmentação ao redor dos olhos como um dos primeiros pontos que criadores experientes avaliam antes mesmo de pensar em reprodução.
Isso acontece porque o olho azul indica, de forma indireta, uma despigmentação mais extensa naquela região da cabeça, exatamente onde a proximidade com o aparelho auditivo é maior. Quanto mais essa despigmentação avança, maior a chance de o mesmo processo ter afetado a cóclea daquele lado do crânio.
A diferença entre surdez unilateral e bilateral
Nem toda surdez em dálmata é total. Muitos filhotes nascem surdos de apenas um ouvido, o que torna o problema quase impossível de perceber sem exame específico, já que o cão ainda reage a sons vindos do lado saudável e se comporta de forma praticamente normal no dia a dia.

O teste de BAER, que mede a resposta elétrica do cérebro a estímulos sonoros, é hoje o único método confiável para diferenciar um dálmata ouvinte de um parcialmente surdo. Sem esse exame, um filhote com surdez unilateral pode passar despercebido durante anos, e o problema só se revela quando o tutor nota falha de reação a chamados vindos de um lado específico.
Como a criação responsável reduz o risco?
Entidades cinófilas recomendam não reproduzir cães surdos bilateralmente nem exemplares de olhos azuis, justamente para conter a transmissão genética do problema às próximas gerações. A escolha de reprodutores com boa pigmentação ao redor dos olhos, ainda que não elimine o risco por completo, reduz de forma consistente a incidência de surdez nos filhotes.
Wilson Bachega Junior comenta que acompanhar o histórico auditivo dos pais e avós de um filhote diz mais sobre o risco real do que observar apenas a aparência do animal adulto. Um criador que aplica o teste de BAER em toda a ninhada, antes de vender qualquer filhote, entrega uma informação que muda completamente a forma como a família vai se preparar para conviver com aquele cão.
Conviver bem com um dálmata que não escuta tudo
Um dálmata com surdez parcial ou total não precisa de uma vida limitada. Comandos visuais, vibração no chão e rotinas consistentes substituem boa parte da comunicação sonora, e cães nessas condições costumam se adaptar com uma naturalidade que surpreende quem só conhece a raça pela imagem clássica dos filmes.
O que muda, de fato, é a expectativa do tutor. Entender a origem genética da surdez transforma um diagnóstico assustador em uma informação previsível, algo que pode ser identificado cedo, acompanhado de perto e integrado à rotina do cão sem drama. A elegância da raça sempre esteve nas manchas, mas o verdadeiro cuidado está em entender o que elas revelam por baixo da pele.
