Queda de público não impede alta na receita projetada pela Alshop, enquanto lojistas de eletrônicos e associações de pequenos comerciantes divergem sobre as causas da retração.
Quem passa por um shopping brasileiro em um dia de semana talvez tenha notado corredores mais vazios do que há alguns anos. Essa impressão tem respaldo em números. Dados da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) apontam queda de 6,2% nas visitas mensais na comparação entre 2019, antes da pandemia, e 2025, segundo reportagem do jornal O Tempo. Ao mesmo tempo, a Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop) projeta faturamento de 203,7 bilhões de reais para o setor em 2026, considerando a entrada de 11 novos empreendimentos no mercado. A combinação de menos gente circulando com mais dinheiro entrando parece contraditória à primeira vista, mas reflete uma reorganização que já está em curso dentro do varejo físico brasileiro, puxada em boa parte pelo avanço das compras pela internet.
Por que os shoppings têm menos visitantes mesmo crescendo em número de unidades
O presidente da Alshop, Nabil Sahyoun, reconhece a queda no volume de clientes em dias como sexta-feira, quando o home office costuma ser mais comum entre as empresas, mas não trata o comércio eletrônico como um adversário direto do shopping físico. Para ele, os dois canais funcionam de forma complementar, e a taxa de vacância média dos shoppings brasileiros está em 4,6%, patamar que a associação considera saudável diante do “crescimento consistente” registrado ao longo dos últimos anos. Entre 2019 e 2025, o número de shoppings no país cresceu 14%, chegando a 658 empreendimentos, enquanto a área bruta locável (ABL) subiu 9%, para 18,3 milhões de metros quadrados, segundo os dados apresentados por Sahyoun.
Nem todo mundo no setor concorda com essa leitura. Mauro Francis, presidente da Associação Brasileira dos Lojistas Satélites de Shoppings (Ablos), que representa pequenos e médios comerciantes, aponta um problema mais estrutural. Segundo ele, as altas taxas de juros somadas à concorrência online pressionam diretamente o bolso do consumidor, que passa a pensar duas vezes antes de comprar em loja física. “A classe média praticamente desapareceu no Brasil”, afirma Francis, que também critica o que considera concorrência desleal de algumas plataformas digitais em relação ao varejo tradicional. A divergência entre Alshop e Ablos mostra que o impacto da retração de público não é sentido da mesma forma por lojistas âncoras e por pequenos comerciantes, que costumam ter menos margem para absorver períodos de menor movimento.
O que os números da Allied e da Abrasce mostram sobre o comportamento do consumidor
Um exemplo prático dessa transformação vem da Allied, distribuidora responsável pela maior parte das lojas Samsung no Brasil. A empresa fechou quase metade dos seus pontos de venda desde a pandemia, saindo de 180 lojas em 2020 para 95 atualmente, todas dentro de shopping centers. Apesar da redução no número de unidades, cada loja remanescente passou a faturar em média 564 mil reais por mês, valor bem acima dos 200 mil reais registrados antes do fechamento das lojas menos lucrativas. Silvio Stagni, presidente da Allied Tecnologia, explica que o público dos shoppings vem caindo de forma geral, o que obrigou a rede a concentrar operações nos pontos com melhor desempenho. Segundo ele, no mercado nacional de celulares, a fatia de vendas online saltou de 25% em 2020 para 45% atualmente, um indicativo direto de como o hábito de compra do consumidor mudou nos últimos anos.
A Abrasce, por sua vez, atribui parte da queda no fluxo de visitantes ao modelo de trabalho híbrido adotado por diversas empresas, que reduz a circulação de pessoas em dias específicos da semana, mesmo em um momento de retomada geral do trabalho presencial no país. Esse cruzamento de fatores, entre juros altos, mudança de hábito de consumo e novos formatos de trabalho, ajuda a explicar por que o setor de shoppings consegue projetar crescimento em faturamento mesmo enquanto lida com menos gente passando pelos corredores. A leitura que fica é a de um mercado em ajuste, no qual lojas menores e menos lucrativas fecham para dar lugar a operações mais concentradas e rentáveis.
O que esperar dos shoppings brasileiros para o restante de 2026
Para quem frequenta shoppings no dia a dia, essa reorganização já aparece em detalhes práticos, como a substituição de lojas fechadas por novos formatos de atendimento, unidades maiores por marca e uma oferta gastronômica mais ampla. A entrada de 11 novos empreendimentos prevista para 2026 sugere que o setor ainda aposta em expansão física, mesmo diante da concorrência crescente do comércio eletrônico, apostando que a experiência presencial continua tendo valor para uma parte relevante do consumidor brasileiro. Ao mesmo tempo, a discussão entre Alshop e Ablos deixa claro que os efeitos dessa transição não chegam da mesma forma a todos os lojistas, e que pequenos comerciantes tendem a sentir com mais intensidade qualquer redução no fluxo de visitantes. Acompanhar como essas associações e grandes redes ajustam suas estratégias ao longo do ano ajuda a entender para onde caminha o consumo presencial no Brasil, e por que a queda em um indicador, como o número de visitas, nem sempre significa retração para o setor como um todo.
Fontes consultadas:
https://www.otempo.com.br/economia/2026/4/20/shoppings-do-pais-enfrentam-queda-de-publico-e-vendas-comercio-online-ganha-espaco
